sábado, 29 de junho de 2013

Poesia: Aquele bêbado, Carlos Drummond de Andrade



- Juro nunca mais beber - e fez o sinal-da- cruz com os indicadores.

Acrescentou: - Álcool.

O mais ele achou que podia beber. Bebia paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. 
Tomou um pileque de Segall. Nos fins de semana, embebedava-se de Índia Reclinada, de Celso Antônio.

- Curou-se 100% do vício - comentavam os amigos.

Só ele sabia que andava mais bêbado que um gambá. Morreu de etilismo abstrato, no meio de uma carraspana de pôr-de-sol no Leblon, e seu féretro ostentava inúmeras coroas de ex-alcoólatras anônimos.

Carlos Drummond de Andrade



Curta nossa página no Facebook, clicando aqui!

Um comentário: