quinta-feira, 13 de junho de 2013

Momentinhos de Leitura: O Velho Lima, Artur de Azevedo




O texto de hoje é retirado do livro "Contos Escolhidos", de Artur de Azevedo. Editora Klick, em publicação pelo jornal O Globo.

Esse conto fala sobre a transição da política brasileira em 1889, na mudança do Império para a República.

Divertidíssimo!

O velho Lima

O velho Lima, que era empregado - empregado antigo - numa das nossas repartições públicas, e morava no Engenho de Dentro, caiu de cama, seriamente enfermo, no dia 14 de Novembro de 1889, isto é, na véspera da proclamação da República dos Estados Unidos do Brasil.
O doente não considerou a moléstia coisa de cuidado, e tanto assim foi que não quis médico: bastaram-lhe alguns remédios caseiros, carinhosamente administrados por uma nédia mulata que há vinte e cinco anos lhe tratava com igual solicitude do amor e da cozinha. Entretanto, velho Lima esteve de molho oito dias.
O nosso homem tinha o hábito de não ler jornais, e, como em casa nada lhe dissessem (porque nada sabiam), ele ignorava completamente que o Império se transformara em República.
No dia 23, restabelecido e pronto para outra, comprou um bilhete, segundo o seu costume e tomou lugar no trem, ao lado do comendador Vidal, que o recebeu com estas palavras: 

- Bom dia, cidadão.

O velho Lima estranhou o cidadão mas de si para si pensou que o comendador dissera aquilo como poderia ter dito ilustre, e não deu maior importância ao cumprimento, limitando-se a responder:


- Bom dia, comendador.

- Qual comendador! Chama-me Vidal! Já não há comendadores!

- Ora essa! Então por quê?

- A República deu cabo de todas as comendas! Acabaram-se!

O velho Lima encarou o comendador, e calou-se, receoso de não ter compreendido a pilhéria.
Passados alguns segundos, perguntou-lhe outro:

- Como vai você com o Aristides?

- Que Aristides?

- O Silveira Lobo.

- Eu? Onde? Como?

- Que diabo! Pois o Aristides não é o seu ministro? Você não é empregado de uma repartição do Ministério do Interior?

- Desta vez não ficou dentro do espírito do velho Lima a menor dúvida de que o comendador houvesse enlouquecido.

- Que estará fazendo a estas horas o Pedro II? - perguntou Vidal passados alguns momentos - Sonetos, naturalmente, que é o que mais se ocupa aquele tipo!

- Ora vejam, refletiu o velho Lima, ora vejam o que é perder a razão: este homem quando estava no seu juízo perfeito era tão monarquista, tão amigo do imperador!

Entretanto, o velho Lima indignou-se vendo que o subdelegado de sua freguesia, sentado no trem, defronte dele, aprovava com um sorriso a perfídia do comendador.

- Uma autoridade policial! Murmurou o velho Lima.

E o comendador acrescentou:

- Eu só quero ver como o ministro brasileiro recebe o Pedro II em Lisboa; ele deve ser no princípio do mês.

O velho Lima comovia-se:

- Não diz coisa com coisa, coitado!

- E a bandeira? Que me diz você da bandeira?

- Ah, sim... a bandeira... sim... repetiu o velho Lima para não o contrariar.

- Como a prefere: com ou sem lema?

- Sem lema, respondeu o bom homem num tom de profundo pesar; sem lema.

- Também eu; não sei o que quer dizer bandeira com letreiro.

Como o trem se demorasse um pouco mais numa das estações, o velho Lima voltou-se para o subdelegado, e disse-lhe:

- Parece que vamos ficar aqui! Está cada vez pior o serviço de Pedro II!

- Qual Pedro II! - bradou o comendador - Isto já não é de Pedro II! Ele que se contente com os cinco mil contos! E vá para casa do diabo! - acrescentou o subdelegado.

O velho Lima estava atônito. Tomou a resolução de calar-se.

Chegado à praça da Aclamação, entro num bonde e foi até à sua secretaria sem reparar em nada nem nada ouvir que o pusesse ao corrente do que se passara.
Notou, entretanto, que um vândalo estava muito ocupado a arrancar as coroas imperiais que enfeitavam o gradil do parque da Aclamação...
Ao entrar na secretaria, um servente preto e mal trajado não o cumprimentou com a costumeira humildade; limitou-se a dizer-lhe:

- Cidadão!

- Deram hoje para me chamar cidadão! - pensou o velho Lima.

Ao subir, cruzou na escada com um conhecido de velha data.

- Oh! Você por aqui! Um revolucionário numa repartição do Estado!

O amigo cumprimentou-o cerimoniosamente:

- Querem ver que já é alguém! - refletiu o velho Lima.

- Amanhã parto para a Paraíba, disse o sujeito cerimonioso, estendendo-lhe as pontas dos dedos; como sabe, vou exercer o cargo de chefe da polícia. Lá estou ao seu dispor.

E desceu.

- Logo vi! Mas que descarado! Um republicano exaltadíssimo!

Ao entrar na sua seção, o velho Lima reparou que haviam desaparecido os reposteiros.

- Muito bem! - disse consigo; foi uma boa medida suprimir os tais reposteiros pesados, agora que vamos entrar na estação calmosa.

Sentou-se, e viu que tinham tirado da parede uma velha litografia representando D. Pedro de Alcântara. Como na ocasião passasse um contínuo, perguntou-lhe:

- Por que tiraram da parede o retrato de sua majestade?

O contínuo respondeu num tom lentamente desdenhoso:

- Ora, cidadão, que fazia ali a figura do Pedro Banana?

E, sentando-se, pensou com tristeza:

- Não dou três anos para que isto seja república!
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