segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As Vantagens de ser Invisível, Stephen Chbosky

Eu estou apaixonada.

Estou tão apaixonada que precisei vir aqui e dizer pra vocês que eu estou apaixonada de verdade. "As Vantagens de ser invisível" é apaixonante.


Nesse livro um menino troca correspondências anônimas com uma pessoa que ele só chama de "Querido amigo". Eu não costumo gostar tanto de livros que são escritos em forma de carta, mas a maneira como Charlie escreve só faz com que eu me sinta amiga dele.

Ele não conta nada de extraordinário. Charlie escreve sobre as experiências que tem. Ele só tem 15 anos e as experiências dele fazem com que a gente pense em como é difícil crescer, e como a vida vai se estruturando de uma forma que muitas vezes a gente não espera. Em como as coisas mudam na vida sem que a gente tenha controle sobre elas...
Charlie não escreve só coisas felizes. Na verdade, ele é um menino bem confuso. Mas isso só torna o texto mais encantador.

Não preciso descrever que tipo de experiências são essas porque são coisas pelas quais quase todos passamos algum dia, ou ainda vamos passar (no caso dos mais novos).

O livro tem uma característica que o fez subir até as primeiras colocações na minha lista mental de Livros Favoritos. Eu acho incrivelmente mágico quando o personagem de um livro me indica outro livro, ou uma música. É como se, além da história, tivéssemos algo a mais a compartilhar, o que torna toda a leitura mais especial. Bom, Charlie indica coisas fantásticas. Algumas eu já conhecia, outras eu já ouvi falar e ainda tem aquelas que eu fiquei com vontade de conhecer porque ele "falou". São livros e músicas. Tantas que dá pra criar uma playlist para ouvir enquanto se lê...

Ainda não assisti ao filme. Em geral, eu prefiro ler o livro antes. Muitas vezes eu nem assisto ao filme. Mas no caso deste livro vou precisar assistir. Imaginei todas as cenas na minha cabeça e estou curiosa pra saber como elas foram retratadas.

Eu não gosto de spoiler e não deixei vazar nada nessa descrição. Mas preciso colocar aqui um exemplo do que disse sobre as músicas (e ainda tem os livros! Mas não vou colocar mais nenhuma lista aqui, porque duas foto-spoiler já seria demais para o mesmo post...)


Espero que vocês leiam, porque é realmente maravilhoso, por mais simples que seja a forma como é escrito e por mais inofensiva que pareça a capa.

Ps: Eu também já me senti infinita, Charlie.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Momentinhos de Leitura: A Chave na Porta, Lygia Fagundes Telles


A Chave na Porta

(Retirado do livro "Invenção e Memória", de Lygia Fagundes Telles, editora Rocco)

A chuva fina. E os carros na furiosa descida pela ladeira, nenhum táxi? A noite tão escura. E aquela árvore solitária lá no fim da rua, podia me abrigar debaixo da folhagem mas onde a folhagem? Assim na distância era visível apenas o tronco com os fios das pequeninas luzes acesas, subindo em espiral na decoração natalina. Uma decoração meio sinistra, pensei. E descobri, essa visão lembrava uma chapa radiográfica revelando apenas o esqueleto da árvore, ah! tivesse ela braços e mãos e seria bem capaz de arrancar e atirar longe aqueles fios que deviam dar choques assim molhados.

- Quer condução, menina?

Recuei depressa quando o carro arrefeceu a marcha e parou na minha frente, ele disse menina? O tom me pareceu familiar. Inclinei-me para ver o motorista, um homem grisalho, de terno e gravata, o cachimbo aceso no canto da boca. Mas espera, esse não era o Sininho? Ah, é claro, o próprio Sininho, um antigo colega da Faculdade, o simpático Sininho! Tinha o apelido de Sino porque estava sempre anunciando alguma novidade. Era burguês mas dizia-se anarquista.

- Sininho, é você!

Ele abriu a porta e o sorriso branquíssimo, de dentinhos separados.

- Um milagre, eu disse enquanto afundava no banco com a bolsa e os pequenos pacotes. Como conseguiu me reconhecer nessa treva?

- Estes faróis são poderosos. E olha que já lá vão quarenta anos, menina. Quarenta anos de formatura! Aspirei com prazer a fumaça do cachimbo e que se misturava ao seu próprio perfume, alfazema? E não parecia ter envelhecido muito, os cabelos estavam grisalhos e a face pálida estava vincada mas o sorriso muito claro não era o mesmo? E me chamava de menina no mesmo tom daqueles tempos. Acendi um cigarro e estendi confortavelmente as pernas. Mas espera, esse carrão antiquado não era o famoso Jaguar que gostava de exibir de vez em quando?

- O próprio.

Fiquei olhando o belo painel com o pequeno relógio verde embutido na madeira clara.

- Você era rico e nós éramos pobres. E ainda por cima a gente lia Dostoievski. 

- Humilhados e ofendidos!

Rimos gostosamente, não era mesmo uma coisa extraordinária? Esse encontro inesperado depois de tanto tempo. E em plena noite de Natal. Contei que voltava de uma reunião de amigos, quis sair furtivamente e para não perturbar inventei que tinha condução. Quando começou a chuva.

- Acho essas festas tão deprimentes, eu disse.

Ele então voltou-se para me ver melhor. Dei-lhe o meu endereço. No farol da esquina ele voltou a me olhar. Passou de leve a mão na minha cabeça mas não disse nada. Guiava como sempre, com cuidado e sem a menor pressa. Contou que voltava também de uma reunião, um pequeno jantar com colegas mas acrescentou logo, eram de outra turma. Tentei vê-lo através do pequeno espelho entortado, mas não era incrível? Eu me sentir assim com a mesma idade daquela estudante da Academia. Outra vez inteira? Inteira. E também ele com o seu eterno carro, meu Deus! na noite escura tudo parecia ainda igual ou quase. Ou quase, pensei ao ouvir sua voz, um tanto enfraquecida rateando como se viesse de alguma pilha gasta. Mas resistindo.

- Quarenta anos como se fossem quarenta dias, ele disse. Você usava uma boina.

- Sininho, você vai achar isso estranho mas tive a pouco a impressão de ter recuperado a juventude. Sem ansiedade, ô! que difícil e que fácil ficar jovem outra vez.

Ele reacendeu o cachimbo, riu baixinho, e comentou, ainda bem que não havia testemunhas dessa conversa. A voz ficou mais forte quando recomeçou a falar em meio as pausas, tinha asma? Contou que depois da formatura foi estudar na Inglaterra. Onde acabou se casando com uma colega da universidade e continuaria casado se ela não tivesse inventado de se casar com outro. Então ele matriculou o filho num colégio, tiveram um filho. E em plena depressão ainda passou por aquela estação no inferno, quando teve uma ligação com uma mulher casada. Um amor tão atormentado, tão louco, ele acrescentou. Vivemos juntos algum tempo, ela também me amava mas acabou voltando para o marido que não era marido, descobri mais tarde, era o próprio pai.

- O pai?!

- Um atroz amor de perdição. Fiquei destrambelhado, desandei a beber e sem outra saída aceitei o que me apareceu, fui lecionar numa pequena cidade afastada de Londres. Um lugar tão modesto mas deslumbrante. Deslumbrante, ele repetiu depois de um breve acesso de tosse. Nos fins de semana viajava para visitar o filho mas logo voltava tão ansioso. Fiquei muito tempo amigo de um abade velhíssimo, Dom Matheus. Foi ele que me deu a mão. Conversávamos tanto nas nossas andanças pelo vasto campo nas redondezas do mosteiro. Recomecei minhas leituras quando fui morar no mosteiro e lecionar numa escola fundada pelos religiosos, meus alunos eram camponeses.

- Você não era ateu?

- Ateu? Era apenas um ser completamente confuso enredado em teias que me tapavam os olhos, os ouvidos... Fiquei por demais infeliz com o fim do meu casamento e não me dei conta disso. E logo em seguida aquele amor que foi só atormentação. Sofrimento. Aos poucos, na nova vida tão simples em meio da natureza eu fui encontrando algumas respostas, eram tantas as minhas dúvidas. Mas o que eu estou fazendo aqui?! me perguntava. Que sentido tem tudo isso? Ficava muito em contato com os bichos, bois. Carneiros. Fui então aprendendo um jogo que não conhecia, o da paciência. E nesse aprendizado acabei por descobrir... (fez uma pausa) por descobrir...

Saímos de uma rua calma para entrar numa avenida agitada, quase não entendia o que ele estava dizendo. Foi o equilíbrio interior que descobriu ou teria falado com Deus?

- Depois do enterro de Dom Matheus, despedi-me dos meus amigos, fui buscar meu filho que já estava esquecendo a língua e voltei para o Brasil. A gente sempre volta. Voltei e fui morar sabe onde? Naquela antiga casa da rua São Salvador, você esteve lá numa festa, lembra?

- Mas como podia esquecer? Uma casa de tijolinhos vermelhos, a noite estava fria e vocês acenderam a lareira, fiquei tão fascinada olhando as labaredas. Me lembro que quando atravessei o jardim passei por um pé de magnólia todo florido, prendi uma flor no cabelo e foi um sucesso! Ah, Sininho, voltou para a mesma casa e esse mesmo carro...

Ele inclinou-se para ler a tabuleta da rua. Empertigou-se satisfeito (estava no caminho certo) e disse que os do signo de Virgem eram desse jeito mesmo, conservadores nos hábitos assim como no feitio dos gatos que simulam um caráter errante mas são comodistas, voltam sempre aos mesmos lugares. Até os anarquistas, acrescentou zombeteiro em meio de uma baforada.

Tinha parado de chover. Apontei-lhe o edifício e nos despedimos rapidamente porque a fila dos carros já engrossava atrás. Quis dizer-lhe como esse encontro me deixou desanuviada mas ele devia estar sabendo, eu não precisava mais falar. Entregou-me os pacotes. Beijei sua face em meio da fumaça azul. Ou azul era a névoa?

Quando subia a escada do edifício, dei por falta da bolsa e lembrei que ela tinha caído no chão do carro numa curva mais fechada. Voltei-me. Espera! cheguei a dizer. E o Jaguar já seguia adiante. Deixei os pacotes no degrau e fiquei ali de braços pendidos: dentro da bolsa estava a chave da porta, eu não podia entrar. Através do vidro da sua concha, o porteiro me observava. E me lembrei de repente rua São Salvador! Apontei para o porteiro os meus pacotes no chão e corri para o táxi que acabava de estacionar.

- É aqui! Quase gritei assim que vi o bangalô dos tijolinhos. Antes de apertar a campainha, fiquei olhando a casa ainda iluminada. Não consegui ver a garagem lá no fundo, mergulhada na sombra mas vislumbrei o pé de magnólia, sem a flores mas firme no meio do gramado. Uma velhota de uniforme veio vindo pela alameda e antes mesmo que ela fizesse perguntas, já fui me desculpando, lamentava incomodar assim tarde da noite mas o problema é que tinha esquecido a bolsa no carro do patrão, um carro prateado, devia ter entrado há pouco. Ele me deu carona e nessa bolsa estava a minha chave. Será que ela podia?...

A mulher me examinou com o olhar severo. Mas que história era essa se o patrão nem tinha saído e já estava até se recolhendo com a mulher e os gêmeos? Carro prateado? Como esqueci a bolsa num carro prateado se na garagem estavam apenas os carros de sempre, o bege e o preto?

- Decerto a senhora errou a casa, dona, ela disse e escondeu a boca irônica na gola do uniforme. Em noite de tanta festa a gente faz mesmo confusão...

Tentei aplacar com as mãos os cabelos que o vento desgrenhou.

- Espera, como é o nome do seu patrão?

- Doutor Glicério, ora. Doutor Glicério Júnior.

- Então é o pai dele que estou procurando, estudamos juntos. Mora nesta rua, um senhor grisalho, guiava um Jaguar prateado...

A mulher recuou fazendo o sinal-da-cruz:

- Mas esse daí morreu faz tempo, meu Deus! É o pai do meu patrão mas ele já morreu, fui até no enterro... Ele já morreu!

Fechei o casaco e fiquei ouvindo minha voz meio desafinada a se enrolar nas desculpas, tinha razão, as casas desse bairro eram muito parecidas, devo ter me enganado, é evidente, fui repetindo enquanto ia recuando até o táxi que me esperava.

- Não é esta?

Fiz que sim com a cabeça. Quando consegui falar foi para dizer, Ah! Que bom. Abri a bolsa e nela afundei a mão mas alguma coisa me picou o dedo. Fiz nova tentativa e dessa vez trouxe um pequeno botão de rosa, um botão vermelho enredado na correntinha do chaveiro. Na extremidade do cabo curto, o espinho. Pedi ao porteiro que depois levasse os pacotes e subi no elevador.

Quando abri a porta do apartamento tive o vago sentimento de que estava abrindo uma outra porta, qual? Uma porta que eu não sabia onde ia dar mas isso agora não tinha importância. Nenhuma importância, pensei e fiquei olhando o perfil da chave na palma da minha mão. Deixei-a na fechadura e fui mergulhar o botão no copo d'água. Agora desabrocha! pedi e toquei de leve na corola vermelha.

Debrucei-me na janela. Lá embaixo, na rua a pequena árvore (parecida com a outra) tinha a mesma coloração das luzes em espiral pelo tronco enegrecido. Mas não era mais a visão sinistra da radiografia revelando na névoa o esqueleto da árvore, ao contrário, o espiralado fio das pequeninas luzes me fez pensar no sorriso dele, luminoso de tão branco.




quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Marcador de livro Mustache!


O Mustache está na moda! Vamos seguir a tendência e fazer um marcador de livro no mesmo estilo!

O passo a passo é bem simples.

Para fazer o marcador de livro Mustache você vai precisar de:
  • Lápis
  • Papel cartão na cor preta
  • Cola
  • Tesoura
Vamos começar?

Usando o lápis e o papel, desenhe dois moldes e recorte.
Cole um sobre o outro, de modo que as duas faces fiquem iguais.



Em seguida, recorte uma tira para usar como suporte do marcador.


Cole a tira na parte de trás do mustache.


Prontinho! Agora é só encaixar seu marcador de livro Mustache!


E aí, gostaram? :)

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Imagens retiradas do site: 
http://impossible-to-no.blogspot.com.br/2013/04/marcadores-de-livros-faceis-de-fazer.html

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Happy Potter Day!


Feliz Potter Day para todos os amantes de Harry Potter!

Para comemorar a data, deixo para vocês o link de download da série, para curtir o dia matando as saudades do bruxinho!

E para quem ainda não foi enfeitiçado por ele, aproveite a oportunidade e conheça o maravilhoso mundo de JK Rowling!

Para fazer o download dos livros clique aqui!




Ps: Este link foi retirado do site, que recomendo, www.malucosdaleitura.blogspot.com.pt . Lá vocês também poderão encontrar inúmeros outros downloads! :)

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sábado, 27 de julho de 2013

Não sabe se lê ou se lancha? Seus problemas acabaram!

Às vezes bate aquela dúvida: "O livro está tão bom, mas preciso parar para comer... Lancho ou continuo lendo?"

O designer coreano Yu Hun Kim inventou a solução!

Trata-se de uma bandeja transparente, feita de acrílico que serve para apoiar a refeição, sem deixar de lado o livro!


A bandeja faz parte da série "Aid For Multi-tasking", que recria utensílios do dia-a-dia, para ajudar aquelas pessoas que gostam de fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo, o que algumas vezes é humanamente impossível.


Não encontrei a peça a venda em nenhum lugar, mas nada impede de usarmos a imaginação e criarmos uma bandeja parecida!

Interessante, não?

Para conhecer mais do trabalho do coreano, acesse o site: http://www.yuhunkim.com/

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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Famosos que são escritores e você provavelmente não sabia

As Rosas Inglesas, Madonna



A "diva do pop" lançou uma série de livros infantis chamada "As Rosas Inglesas", que conta a história de cinco amigas inseparáveis: Nicole, Binah, Amy, Charlotte e Grace, que formam o grupo "Rosas Inglesas".


A arte das capas é lindíssima!

O primeiro livro da série se chama "Amigas Para Sempre". Nesta história as meninas decidem escrever um livro juntas, por influência de uma professora da escola que elas admiram muito, no qual falam sobre as pessoas que conhecem e suas memórias favoritas, além de darem dicas de como lidar com coisas importantes da vida, como maneiras de estudar e aprender a organizar o seu tempo.

Uma Vida Inventada, Maite Proença



Um mistura de ficção e biografia onde Maitê mescla suas histórias às da personagem, uma menina de doze anos. A atriz teve a mãe assinada pelo pai, que após cometer o crime foi internado em uma clínica. 
Maitê conta sobre sua criação, suas viagens, seu trabalho e sua busca espiritual.
Livro digno de ser devorado até mesmo por quem não liga para as atrizes globais.

Um Menino Chamado Rorbeto, Gabriel, O Pensador



Gabriel, O Pensador também é escritor! Ele lançou o livro infantil "Um Garoto chamado Rorbeto", em 2005.

Não precisa voltar e reler a última frase. Você não leu errado, o título é esse mesmo, o nome do menino é Rorbeto. A história é contada toda em rimas, com um ritmo gostoso de ler.

O livro conta a história de um menino que descobre ter 6 dedos em uma das mãos e morre de vergonha disso. Ele passa a andar com a mão em uma sacola para que ninguém na escola ria dele e precisa aprender, ao longo da história, a lidar com essa diferença.


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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Momentinhos de leitura: Contos de Florbela Espanca

Hoje teremos um conto de Florbela Espanca, retirado do livro "Contos", com introdução e organização de José Carlos Seabra Pereira, da editora Editorial Presença.

Florbela Espanca

A morta

Isso aconteceu.
A Morta ouviu dar a última badalada da meia-noite, ergueu os braços, e levantou a tampa do caixão. Desceu, devagarinho, circunvagou ao redor os olhos de pupilas sem luz; os outros mortos, bem mortos, dormiam pesadamente.  Puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite. O vestido branco manchou o negrume das sombras. Fúnebres ciprestes, almas de tísicos, bailavam numa clareira uma macabra dança de roda. Avançou lentamente pela avenida soturna voltando para eles os glóbulos vítreos dos seus olhos sem luz. Parou um momento, clarão no meio das sombras, a ver um menininho, nu e branco como um mármore grego, que piedosamente se entretinha a encher de lágrimas uma urna partida, onde as pombas viriam beber de dia. Um suicida, escavando a terra com as unhas, procurava o seu sonho, porque se tinha perdido.
As estátuas descansavam das suas atitudes contrafeitas. A saudade alisava as roupagens roçagantes, e sentava-se com a face entre as mãos, olhando vagamente a noite. Uma musa de curvas sensuais, num túmulo de pedra, cerrava languidamente os olhos e fazia com a boca o gesto de quem beija. Um sapo enorme, de olhos magníficos como estrelas, lançava a sua nota rouca, refastelado num fofo leito de lírios.
A Morta caminhava num passo de morta, num ciciar de brisa na folhagem; os sapatinhos de cetim branco mal pousavam nas pedras do caminho; as pupilas sem luz não tinham olhar, e viam. A Morta sabia onde ia.
A Morta ia a lembrar-se, que os mortos também se lembram; na solidão do túmulo há tempo e sossego para lembrar, é lá que as virgens tecem as mais preciosas lhamas dos seus sonhos. Para quem saiba ouvir, há vibrações de carnes mortas nos túmulos brancos, das que morreram puras, como que um frêmito brando de erva a crescer...
A Morta ia a lembrar-se:
Sentira num êxtase sobre-humano, num assombroso sair de si, numa prodigiosa transfiguração de todas as fibras do seu ser, a pressão de uns dedos quentes que lhe desciam as pálpebras sobre as pupilas paradas. Uma boca, que ela nunca sonhara tão macia e fresca, roçara-lhe a macieza e a frescura da sua, em beijos miudinhos, carinhosos, castos como aquelas gotas de chuva que nas tardes de verão, infantilmente, recolhia nas suas duas mãos estendidas.
Vestiram-na de branco, ungiram-na de branco, envolveram-na numa nuvem de branco. Era branca a almofada de rendas onde lhe pousaram a cabeça, devagarinho, no gesto sagrado de quem pousa uma relíquia três vezes santa nas rendas de um altar. Brancos, os sapatinhos de cetim, aqueles mesmos que mal roçavam agora as pedras do caminho. Branca, as grinalda de rosas de toucar que lhe prenderam à seda dos cabelos. Branco, o vestido, o seu último vestido do seu último baile. Brancos, os cachos de lilás, as rosas e os cravos que eram como asas de pomba a cobri-la. Branca, a caixinha de sete palmos pequeninos, onde a mãe a deitou como a deitara anos a fio na brancura do berço.
E agora, as cartas do noivo, o retrato do noivo, as dulcíssimas recordações do noivo. E, piedosamente, cuidadosamente, não fosse esquecer alguma pétala de flor, algum fiozinho dos seus lindos cabelos pretos, algum pedacinho de papel onde as queridas mãos morenas lhe tinham traçado o nome, tudo lhe levaram, como uma divina oferta a um ser divinizado. Tudo levou. Parecia que se tinha tornado de repente mais pequenina, mais imaterial, mais acolhedora, para que tudo lá coubesse, para que nada esquecesse, para que nada ficasse a gelar lá fora no frio glacial da indiferença deste mundo que transe as almas e as coisas. Que lhe pusessem tudo, o caixão não pesaria mais por isso... Todo o ouro a jorros das suas misteriosas quimeras, todos os fúlgidos brocados tecidos dos preciosos metais, semeados das gemas cintilantes das suas miragens de amor, de todas as altas torres brancas de seus sonhos, tudo era tão leve, tão leve, que a caixinha de sete palmos pesava menos que uma pena de colibri.
Depois, a tampa da caixinha tombou brandamente entre o ciciar dos soluços, e toda a brancura se apagou; uma noite de luar que se cerrasse em sombras...
E lá foi... Desceu os degraus da escada, balançada no seu esquife branco, com a cabeça tonta do perfume das flores e dos seus sonhos de amor encerrados com elas, como se tivessem encerrado, numa suprema oferta, todas as primaveras que no mundo havia de florir depois dela.
E lá a deixaram. A vaga que a levara, quebrara-se de encontro à praia, e o esquife barco sem velas, dormia no porto ao abrigo dos vendavais, das medonhas invernias desencadeadas, das outras vagas maiores que se quebravam ao longe, num marulhar incessante, no mar alto da vida. A Morta podia dormir, a Morta podia sonhar.
Silêncio. Um silêncio feito de fluidos rumorosos, do vago rastejar de um perfume, de um leve vapor de incenso pairando. Silêncio como um vago clarão de fogo fátuo, como um rastro, a poeira de um desejo imaterial, silêncio em torno da vasta catedral de sombras onde as sombras vestidas de branco pontificam pelas noites.

Os outros mortos, ao lado, dormiam pesadamente, descansadamente. Um dia tinham pendido os braços num gesto de fadiga e tinham ficado assim pelos séculos dos séculos. A Morta viu-os a todos e de nenhum se lembrou; o mundo ficava longe.
Começou depois o encantamento. Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura de umas pálpebras que se fechassem, o perfume das rosas, dos cachos de lilás, das suas recordações de amor encerradas com ela, fazia-se mais denso, corporizava-se, tornava-se nuvem, unguento divino que a inundava, que a aromatizava toda. Os passos, letras de um poema que ela sabia de cor, mal se ouviam, perdidos ainda no coração da cidade, gritante, alucinada a cidade dos vivos... mas agora, vinham mais perto, distinguiam-se melhor, eram mais arrastados, tateavam o chão, tomavam posse das pedras do caminho da silenciosa cidade dos mortos.
A sete palmos brancos onde as flores dormiam de encontro a carne branca da virgem, eram como um enxame de abelhas de ouro: zumbiam lá dentro todas as litanias de amor, batiam desvairadamente os corações dos cravos, abriam-se sedentas as pequeninas bocas das mil florinhas de lilás, aos seus pálidos das rosas aflorava uma onda levíssima de carmim.
A mão do noivo empurrava a porta do jazigo. Os outros mortos, ao lado, não o sentiam entrar; braços pendentes num gesto de fadiga, tinham ficado assim pelos séculos dos séculos.

Entre o vivo e a morta, o diálogo era de uma sobre-humana beleza.
Essência de almas, as almas tocavam-se e era tão cândido e tão profundo aquele choque que as misteriosas forças deste fluido criavam outros fluidos, sopros, hálitos de alma, desses que os predestinados sentem às vezes passar como asas invisíveis roçando um rosto na escuridão. Diálogo em que as bocas ficavam mudas, em que os sons eram imateriais e os gestos intangíveis, e o perfume, que é a alma dos sentimentos, não era mais pesado que uma essência de perfume.
O vivo e a morta falavam, e o que diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os outros mortos, aqueles que ao lado dormiam pesadamente, braços estendidos num gesto de fadiga pelos séculos dos séculos.
O perfume agora era mais brando, narcisava-se, palpitava ainda como um ruflar de asas cansadas ao chegar ao ninho...
A mão do noivo puxava para si a porta do jazigo... os passos perdiam-se ao longe na silenciosa cidade dos mortos, depois na alucinante cidade dos vivos, e tudo se aquietava. Aproximava-se o silêncio, que trazia pela mão, devagarinho, não fosse tropeçar a noite cega.
Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra, outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. Na caixinha de sete palmos onde os cravos e os lilases eram viçosos e frescos ainda, como se uma eterna madrugada os banhasse de orvalho, começaram a enlanguescer os perfumes, as desmaiar os seios nus das rosas; as cartas de amor amareleciam; os braços da virgem iam esboçando já o gesto de fadiga dos outros mortos que ao lado dormiam pesadamente.
Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas que o silêncio trazia pela mão, uma noite em que ela sentia gotejar lá fora as lágrimas de todo um mundo de que se tinha esquecido, foi então que ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho... foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.
E a Morta foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada - para que se há de fechar a porta dos mortos?... - e saiu... e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar. Foram mais ternos os beijos das noivas; as mães sentiram mais calmos os sonhos dos filhos como se a bênção do céu descesse misericordiosa sobre os berços; os braços das amantes apararam melhor as cabeças desfalecidas, e os que estavam para morrer tiveram pena da vida.
Atravessou ruas ermas, estradas solitárias povoadas de sombras mais vãs e fugidias do que ela era; procurou com as suas pupilas sem luz o clarão que as ascendera, estendeu os braços a todos os gritos, andou de porta em porta, subiu a todos os lares, revolveu todas as agonias, debruçou-se em todos os abismos, penetrou o mistério de todos os sonhos. E cada vez as sombras eram mais vãs e fugidias, e os clarões iam-se apagando, estrelas cadentes no negrume cerrado daquela Gólgota. Nada!
Foi então que lhe chegou aos ouvidos um sussurro brandinho... Seriam passos?... Ruflar de asas?... Folhas de Outono tombando?...
E a Morta parou.
Barulho de ondas pequeninas. O rio.
Na taça de prata, cinzelada a traços de maravilha pelas mãos dos gênios das águas, erguida ao alto por mãos misteriosas e invisíveis, dormia todo o azul do infinito. O seu vestido brando aureolou-se de sonho, teve tons azulados de nácar e madrepérola, claridades fosforescentes de fogo fátuo; como se lhe batessem de chapa todo o luar dos céus longínquos, lembrou um manto de Virgem; as mãos, num gesto de graça, foram duas minúsculas conchas azuis. Era ali.
Debruçou-se... Barulho de ondas... E a morta foi mais uma onda, uma onda pequenina, uma onda azul na taça de prata a faiscar...
Isto aconteceu.
De manhãzinha, quando as pombas sedentas vieram beber as lágrimas da urna quebrada, quando o sapo, de magníficos olhos como estrelas, deixou o seu fresco leito de lírios, e a saudade se enrodilhou de novo no suntuoso túmulo de mármore, a soluçar, quando a musa de curvas sensuais moldou a boca que toda a noite dera beijos na imobilidade rígida das linhas austeras e frias, quando enfim as sombras se esvaíram na silenciosa cidade dos mortos, um caixão foi encontrado vazio, uma caixinha branca de sete palmos pequeninos, onde cartas de amor amareleciam e flores deixavam pender as pálidas cabeças desmaiadas.

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